BRASIL

LULA RESISTE A APONTAR UMA ALTERNATIVA AO SEU NOME

FOTO: O GLOBO

Na quarta-feira da semana passada, um graduado expoente do Partido dos Trabalhadores conversava sobre o cenário político atual em seu escritório na região central de São Paulo. Dias antes, havia recebido a notícia de que Guilherme Boulos, o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST, havia batido o martelo e seria – sim – candidato à Presidência da República pelo PSOL. “É um mau passo”, disse. “Se ele tivesse vindo para o PT, seria o natural sucessor do Lula.” Na avaliação do petista, Boulos tinha o perfil ideal: era jovem (tem 35 anos), carismático, engajado, preparado. “Mas, no PSOL, ele vai virar apenas um político. Vai perder e vai virar parte da engrenagem de uma legenda pouco expressiva. No PT, ele poderia virar um mito”, completou.

Há meses, Boulos vinha sendo sondado de maneira discreta por dirigentes do partido – inclusive o próprio Lula. Ouviu deles que era um líder popular como o ex-presidente foi na década de 1970, alguém com real capacidade de agregar apoiadores e que desfrutava de um ativo valiosíssimo hoje, o fato de – ainda – não ser um político profissional. No começo, ele escutou interessado, deixando claro na largada que, para avançar, a conversa teria de passar por uma reinvenção do PT – o que ele achava impossível acontecer. “Existe uma aproximação entre nós: as pautas em defesa da democracia, contra a perseguição a Lula, ao golpe contra Dilma, o combate às reformas de Temer. Mas, quanto aos projetos políticos, há uma diferença grande”, disse Boulos a ÉPOCA.

HERDEIRO Lula e o pré-candidato à Presidência pelo PSOL, Guilherme Boulos. Parte do PT sonhava em tê-lo como substituto do ex-presidente (Foto: Alice Vergueiro/Estadão Conteúdo)

FOTO: ESTADÃO

A lamúria petista por não ter Boulos revelava uma questão maior e mais pungente: não havia um plano B para substituir Lula no meio da corrida eleitoral. A estratégia partidária é arrastar a candidatura até o último minuto –quando ele será barrado pela Justiça Eleitoral com base na Lei da Ficha Limpa. Condenado em segunda instância, o ex-presidente pode recorrer, mas suas chances são pequenas. “E aí vai chegar o momento em que vamos dizer ‘tentamos tudo e não deu’ e ele indicaria alguém dizendo ‘vote nele ou nela como se vocês estivessem votando em mim’”, comentou o líder petista. O problema é que esse “alguém” não existe. E Lula também não quer que ele exista. Ou pelo menos quer adiar sua existência. Quando o caso vem à baila, ele desconversa.

Haveria algumas razões. Antecipar a substituição poderia prejudicar sua defesa. O empenho agora é em livrá-lo da cadeia. Na semana passada, o ex-ministro Sepúlveda Pertence se somou ao time de advogados de Lula. Também poderia criar uma frustração eleitoral e fazer despencar sua intenção de voto – que gira em torno dos 37%. Outro motivo seria a falta de consenso entre a militância, que, quase unânime, não cogita uma alternativa de candidatura. Mas talvez a mais sensível é o que é chamado internamente em tom de troça de “a síndrome do dedo podre”.

As pesquisas confirmam a convicção do PT de que as indicações de Lula são, digamos assim, polêmicas. Seus escolhidos podem até ser eleitos, mas desaparecem com facilidade, deixando uma herança política complicada. Batizados de “postes” pelo colunista Elio Gaspari, tanto a ex-presidente Dilma Rousseff quanto o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad dão cara à impressão. Quase todos os levantamentos mostram que os eleitores são fiéis a Lula, mas não a seus conselhos – por causa de Dilma, a maioria declara que não votaria em outro candidato indicado por ele. Fizeram isso em 2010 e 2014 e se arrependeram. De seu lado, Haddad está à disposição para ser seu substituto quando ele tiver de abandonar o barco, mas não empolga a maioria dos petistas. Na última pesquisa Datafolha de intenção de votos, Haddad não foi nem mencionado. A “independência” dos postes é o temor. A exemplo de Dilma, com quem não se dá, Haddad abandonou os conselhos de Lula depois de eleito.

Entre os petistas, a síndrome do dedo podre deixou marcas indeléveis, sobretudo nos envolvidos na Lava Jato. As indicações de Lula para o Supremo Tribunal Federal, por exemplo. O ministro Dias Toffoli, o último indicado por Lula, foi advogado do partido. Esperavam ajuda. Toffoli não comprometeu o partido no mensalão, quando estava chegando ao tribunal, mas nos últimos tempos é visto como alguém que deu as costas ao PT e se aproximou de Gilmar Mendes, antipetista, anti-Lula, antiesquerda. Com sua atuação contra o reexame da questão da prisão em segunda instância, que poderia livrar Lula da cadeia, a presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia, confirma a visão petista de alguém que chega ao cargo pela mão do ex-presidente, mas não estende a mão. O que os jurisconsultos chamam de independência, os petistas rotulam de traição.

O figurão petista precisava sair para almoçar e quis apressar o fim da conversa. Ele lembrou que a falta de organização para a campanha de Lula é preocupante. Ainda não há um coordenador como timoneiro. A assessoria da presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, confirmou ainda não haver definição sobre quem vai coordenar a campanha de Lula. Ela seria a escolha natural, mas não terá tempo para a função. Com seu processo derivado da Lava Jato perto de ser examinado pelo STF, ela deve se dedicar mais a sua campanha a deputada federal, uma opção mais segura de reeleição e foro privilegiado. O presidente do PT paulista, Rui Falcão, também será candidato a deputado federal. Outros possíveis coordenadores, como o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, precisam se dedicar às próprias campanhas.

Jaques Wagner seria, entre os disponíveis, o preferido entre os petistas para assumir a candidatura presidencial deixada por Lula. Mas suas chances de vencer são mínimas, e ele tem uma opção menos espinhosa, de concorrer ao Senado e conquistar direito a foro no Supremo – o que investigados pela Lava Jato como ele almejam.

Como seu passado o condena, e se Lula indicar um terceiro poste e esse perder a eleição? O comissário petista virou a cabeça para a direita e apontou para uma foto do ex-presidente num comício antigo. “Aí, ele vira apenas um retrato na parede.”

Fonte: Época

Anúncios

OBRIGADO POR CURTIR E PARTICIPAR DO NOSSO BLOG.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s