ENTREVISTAS

ENTREVISTA: JÔ SOARES

Entrevistar entrevistador não é fácil. Ainda mais quando se trata do maior entrevistador do Brasil dos últimos 30 anos. Entre 1988 e 2016, o ator, escritor, humorista e diretor Jô Soares comandou os dois talk shows mais populares da televisão brasileira da virada do século: “Jô Soares Onze e Meia”, no SBT (1988-1999), e “Programa do Jô”, na Globo (2000-2016). Afastado da televisão, ele escreveu ao longo de 2017 o primeiro volume de sua “autobiografia desautorizada”, “O Livro de Jô” (Companhia das Letras), cujo segundo volume está finalizando, a partir de depoimentos para o jornalista Matinas Suzuki Jr. Agora prepara o espírito para fazer 80 anos em 16 de janeiro — até porque diz se sentir jovial e entusiasmado. Mais habituado a perguntar do que ser perguntado, Jô aceitou conceder esta entrevista. Por força do hábito, foi ele que telefonou para o entrevistador. Na conversa, fala de seus planos (vai dirigir uma peça de teatro), critica a situação política do Brasil e afirma que o humor continua a ser um instrumento cortante de mudança social. Segundo ele, não é uma tarefa divertida, ecoando a epígrafe com a qual abre o livro, a frase final do ator cômico britânico Edmund Gwenn: “Morrer é fácil… Difícil é fazer comédia”. Então Jô respira dificuldade.

Depois de ficcionista, artista e roteirista, você adota a carreira de memorialista, e já virou best-seller. Quais as emoções na sua enésima carreira de sucesso?

Eu me sinto assustado, pela quantidade das coisas que eu vivi e pelas quais eu passei, sem ter consciência disso. Aliás, isso é bom. Gostei de ser chamado pela primeira vez, agora por você, de memorialista. Essa ficha não tinha caído.

Fazer 80 anos anos é um peso?

Não. O peso foi 79. Acho um número tão antipático porque ele não tem o erotismo do 69. Oitenta é um número redondo.

Diante de tudo o que você ainda quer realizar, não é cedo para escrever uma autobiografia?

Eu acho, mas fui obrigado a fazê-la, começando pelo (editor) Luiz Schwarcz, que disse que estava na hora e eu tinha que fazer. As pessoas descobrem coisas na biografia que, para mim, são naturais. Quando falo que fui morar num quarto alugado cujo dono era um judeu polonês refugiado com câncer, e pela primeira vez eu via escaras e fiquei horrorizado, os leitores ficam surpresos. Há algum tempo, uma senhora me escreveu uma carta dizendo que era um pena que eu não soubesse o que é ser pobre. Ela informava o telefone na carta e liguei para ela: “Querida, você está enganada. Passei muita necessidade. E sempre tive uma arma contra isso, como tenho até hoje, que é o humor.’ Contei minha vida para ela, e ela chorou.

O humor atual não soa grosseiro para quem como você cultivou o estilo sofisticado?

O humor agressivo é um fenômeno mundial. Mas o humor no n Brasil conta com alguns talentos diferenciados. Mesmo nos talk shows da televisão, temos pessoas com muito talento. Vou citar só um, e que os outros me desculpem: o Fábio Porchat me parece uma pessoa interessante, com inteligência e visão de mundo. Mas nem tudo está perdido. Houve um momento em que o Chico Anysio dizia: “Eu não sei de quem os meus netos vão rir”. Eu respondia: “Vão rir de você, Chico, porque você continua”. Mesmo sem Chico, não corremos esse risco. Há um humor que floresce por aí que é de má qualidade. Mas o principal é que haja a liberdade, que não exista pressão do politicamente correto, que é um absurdo. Daqui a pouco vou ter que dizer que, em vez de gordo, eu tenho um visual alternativo. Continuo a acreditar no humor como uma forma de melhorar o mundo. O humor é uma arma que pode corrigir o Brasil.

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FOTO: TV FOCO

Você vê com desconfiança o processo institucional?

Sempre insisto na importância do humor no processo político. Pena que o Millôr Fernandes não esteja entre nós, porque o Brasil hoje seria um prato cheio para ele. Millôr era severo até nas críticas ao Fernando Henrique. Imagina hoje como ele não deitaria e rolaria?

Millôr dizia que você só vai se sentir feliz quando fizer um papel sério, do qual o público não rirá. É um velho sonho seu fazer esse papel?

Não! (risos) Não tenho esse apelo que todo ator tem de fazer Hamlet. Mas pensando bem… Se você ler a peça, vai reparar que Hamlet é gorducho.

Como é não estar na televisão todas as noites depois de tanto tempo?

Sinto que foi missão cumprida. Parei na hora certa, por vontade própria. Recebi muitas propostas de continuar em outros lugares fazendo o programa. Mas é um ciclo que fechou na hora certa. É melhor você sair no pique e no auge do que você está fazendo do que sair decadente.

Nos últimos tempos, como durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, você também se envolveu com temas políticos no programa, não?

Foi fundamental participar desse momento. Eu mexi com as pessoas. Quando entrevistei a Dilma, um sujeito chegou a pichar na porta da minha casa os dizeres “Morra, Jô Soares”. Mas eu, como jornalista, jamais deixaria de entrevistar um presidente da República. Por que não? E tem mais: fiz todas as perguntas que todo mundo queria fazer. Só não entrei em debate com ela. Eu estava lá para perguntar. Queria cumprir minha missão de entrevistar, no caso a presidente da República. E acabei contrariando-a de cara, porque eu a chamei logo de “presidente”, apesar de ela querer ser chamada de “presidenta”. Eu pensei: não vou cometer um erro brutal desses só para agradá-la ou puxar o saco. Um detalhe: ela queria vir ao estúdio, nós achamos que seria perigoso para ela naquele momento tão conturbado. Nunca deixaria de entrevistar um presidente, mesmo sem concordar com ele.

Você é vítima das campanhas de difamação contra as celebridades que viralizam na internet?

As redes sociais dão voz a um certo rancor e a uma mediocridade da qual eu não sou alvo. Até porque me manifesto pouco, não tenho twitter, não tenho Facebook nem o Scarfacebook.

Que análise você faz da situação política do Brasil hoje, com toda radicalização ideológica?

Cada vez mais vez mais fica evidente que há a necessidade da separação entre política e economia. A economia passa por um momento de recuperação que é atrapalhado pela política. Esse é um fenômeno mundial. Hoje existe um partido nazista na Alemanha em ascensão. No Brasil, acontece uma polarização entre esquerda e direita, só que os dois lados não existem. Quem é o Lula? Um cara julgado e condenado como ladrão, e continua arrastando seus 35% de eleitores — e não deve mais passar disso. Isso porque as pessoas de classe média que o apoiaram achando que ele daria fim à corrupção viram exatamente o oposto. Por outro lado, não é possível que o Bolsonaro consiga levar uma quantidade significativa de votos. A política é um caldeirão. Vamos ver como vai ser o rescaldo para esse caldeirão. As coisas têm que se esgotar nelas mesmas. Todo movimento real revolucionário, o trotskista, por exemplo, não teve sequência, porque mataram o Trótski. O poder mata.

Você acredita que pode ainda sair do centro uma liderança inteligente e responsável?

Os partidos de centro empobreceram. Não sei dizer especificamente. Mas tenho a impressão que, primeiro, vai haver um reboliço entre os dois extremos e, depois, as coisas devem ganhar o bom senso. Talvez isso aconteça nas redes sociais. Ao mesmo tempo que elas dão voz a uma série de coisas medíocres também têm a possibilidade de trazer as pessoas ao bom senso e a uma reflexão, porque ninguém está pensando ainda nas possibilidades vindouras. Nesse meio tempo, vamos passar pela briga insana entre o PT, que podemos chamar de extrema esquerda, mas não é, e a extrema-direita do Bolsonaro. É uma coisa que se esvazia no próprio líder, mas vamos ter de suportar e ver qual será o resultado real das próximas eleições.

O Supremo Tribunal Federal não exerceria um poder moderador?

A meu ver, o STF tem algumas atitudes condenáveis de alguns ministros, como o Gilmar Mendes. Nós tivemos dois grandes Gilmares na história do Brasil: o Gilmar, goleiro da Seleção Brasileira, que pegava todas. E agora temos o Gilmar do Supremo, que solta todas.

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FOTO: JORNAL NH

Que significa para você ser anarquista?

Sou anarquista do ponto de vista intelectual. Não vou sair jogando bombas por aí como um Black bloc. Quando digo que sou anarquista, é o seguinte: eu não me engajo em nenhum movimento político. Em princípio, sou crítico deles, qualquer que seja. O único palanque político em que eu subi na minha vida foi o das Diretas Já. Subiria sempre. Para mim, há uma cláusula pétrea na Constituição: liberdade total de expressão. Não adianta. Pode haver grupos que acham que é um absurdo ver um homem nu no palco. Podem achar o que quiserem. Porém, do ponto de vista legal ninguém pode tirar o direito de expressão nem dos artistas, muito menos ainda da imprensa. É uma coisa absolutista.

As manifestações contra obras de arte não podem prejudicar a cultura brasileira?

Isso está acontecendo no mundo todo. Há pequenos grupos reacionários, que querem proibir qualquer coisa que não seja a verdade eles. Mas são pequenos blocos que aparecem e sempre apareceram. É um horror. Mas não tem como coibir esse tipo de movimento.

Você acha que uma radicalização extrema, até chegar a um estado de exceção, pode se repetir?

Eu acho que não, porque a história só se repete como farsa, como dizia Marx. Hoje acontece a repetição como farsa da época do AI-5. Graças a Deus, é farsa. O que estamos falando aqui não seria publicado. Tem gente que ainda fala que a ditadura foi suave. Era uma ditadura na qual os torturadores pegaram a Miriam Leitão, deixaram-na nua num quarto escuro e jogaram um jiboia dentro e saíram rindo. Isso era uma ditadura suave?

Estamos na era dos videntes. Com que profecia você nos brinda para este ano?

Por enquanto, as perspectivas são de briga de rua. O ano de 2018 será o ano da perturbação. Isso num momento em que a gente precisaria de serenidade.

É impressionante como você consegue descrever tantos detalhes de sua vida, com toda a quantidade de atividades e vivências que você tem. Como você foi capaz de lembra de tudo? Foi o Matinas Suzuki que puxou por sua memória?

O Matinas perguntava uma coisa e isso lembrava outra, que lembrava outra, que lembrava mais uma, e por aí adiante. Fiquei espantado como uma lembrança puxava outra, coisas nas quais eu não pensava havia muitos anos.

Você pensava em ser entrevistador desde o início da carreira? Quais foram suas referências?

Era uma coisa que eu tinha vontade de fazer desde que eu participei do programa do Silveira Sampaio, fazendo as entrevistas externas e as internacionais. Naquele momento em pensei que aquilo era uma coisa que eu sabia fazer e que gostaria de fazer. A partir daí, fui assistir a alguns programas do Jack Parker, o precursor do Johnny Carson, descobri o humorista e músico Steve Allen que apresentava o programa “Tonight”. Todos eles pararam quando quiseram. Isso é um privilégio. Se você puder parar no auge, pare. É uma sensação de bem-estar maravilhosa.

Que balanço você faz de sua longa carreira como entrevistador e que momentos foram marcantes?

Foram 15 mil entrevistas num período de 28 anos, tendo entrevistado do sapateiro ao prêmio Nobel, passando pelo presidentes, pelo engraxate do presidente, políticos e militares. Tive o privilégio de receber das mãos de Ulysses Guimarães a primeira cópia da nova Constituição assinada por ele e pelo revisor, Bernardo Cabral – infelizmente hoje de triste memória. Tive privilégios impagáveis. O Ulysses foi a meu programa como se fosse uma coisa importante para ele , quando, no fundo, aquilo era importantíssimo para mim. Em uma avaliação histórica, era um outro nível de político, de mundo. Todo mundo passou a ir para aquele sofá, e eu fiquei envaidecido de ter participado de momentos importantes da história do Brasil. Um deles foi o período do impeachment do Collor. Naquela época, o pessoal dizia que havia duas CPIs: de tarde, no Congresso, e à noite, no meu programa.

Seu envolvimento nos últimos anos foi tanto na política que você chegou a ser chamado de petista…

Eu tinha o quadro “As Meninas no Jô”. Eu sinto falta dessa parte e tive até proposta de fazer o programa na GloboNews.  Mas eu não quis. Minha posição política sempre foi anarquista. Nunca tomei partido desse ou daquele. Mas, de repente, as pessoas ficaram tão alucinadas que disseram numa rede social que eu era o grande beneficiado da Lei Rouanet. Nunca apliquei nada na Lei Rouanet. São os produtores que fazem o pedido e precisam especificar quem eles acham que devem contratar para os projetos. Aí me citam. É  o que basta para me acusarem que eu levei R$ 9 milhões no projeto.

Você sempre foi crítico de todas as cores políticas, e, pelo jeito, continua sendo.

As pessoas não entendem, elas gostam de rotular os seus semelhantes. Fica difícil quando você de repente é contra a Dilma e entrevista a Dilma, quando você é obviamente contra o Temer… Ele quis dar entrevista, mas queria que a gente fizesse no Planalto. A gente faria entrevista com ele se ele viesse o programa, enfrentar a plateia. O importante é não atender nenhum interesse específico. Isso aí não tem preço.

Consta que você se recusou a entrevistar o Lula.

Antes da eleição de 2002, eu tinha entrevistado o Lula doze vezes. Na décima terceira, ele telefonou para minha casa junto com o Duda Mendonça para dizer: olha, essa entrevista vai me dar sorte porque é a décima terceira, e 13 é o número do PT. Mas na semana em que ele viria, a gente gravava na segunda, eu soube que ele ia dar uma entrevista extensa para o Ratinho. Liguei pro Ricardo Kotscho e disse: “Está cancelada minha entrevista com o Lula. Acho o Ratinho espetacular, mas se ele me oferece uma entrevista exclusiva e eu concordo depois de tantas entrevistas, ele vai me furar, além do que é presidente? Não. Então está cancelada a entrevista.” Minha produção ficou horrorizada. A imprensa ficou indignada, depois todos me deram razão. Nada irrita mais quem faz jornalismo que prometer uma entrevista exclusiva e depois furar da forma mais absurda possível. Foi quebrar um acordo.

Depois você nunca mais entrevistou o Lula?

Nunca mais entrevistei o Lula e não sinto falta. Naquele tempo antes do Mensalão, ele se recusava a dar entrevistas.

O obscurantismo e a guinada à direita não lembra uma reprise farsesca da ditadura no Brasil?

Não, na ditadura era pior. Tudo tinha que passar por escrito. Depois, havia um grupo de censores para dar a palavra final de obras de arte, exposições, peças. Isso no comecinho da ditadura.

O comportamento absolutista, que caracteriza as manifestações contra exposições e peças de teatro, não pode manchar a cultura brasileira, fundada na diversidade?

Isso está acontecendo, mas não oficialmente. O fenômeno está acontecendo no mundo todo. Há pequenos grupos reacionários, que querem proibir qualquer coisa que não seja a verdade eles. Mas são pequenos blocos que aparecem e sempre apareceram. É um horror. Ma não tem como coibir esse tipo de movimento.

Você, que se diz anarquista, é contra os black blocs?

Vi vários deles com a suástica pintada nas costas. Isso deixa de ser anarquismo e passa ser uma coisa de engajamento de direita extrema. O sujeito levantar a suástica como emblema e quebrar coisas em nome do nazismo. A gente já viu acontecer. Essa pagina já foi felizmente virada.

Fonte: Istoé

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