ENTREVISTAS

ENTREVISTA: RENATO JANINE RIBEIRO

Em abril de 2015, um raro lampejo de esperança surgiu no cenário já agonizante do governo Dilma Rousseff (PT). Foi quando o filósofo e cientista político Renato Janine Ribeiro (foto), 67 anos, aceitou o convite da então presidente para ser Ministro da Educação. Professor de Ética e Filosofia Política da USP, ele foi corajoso ao levar seu prestígio intelectual para a pasta. A felicidade durou pouco. Apenas seis meses depois, ele sairia do governo devido a uma reforma ministerial. Para ele, a sensação vivida em alguns momentos daquele período foi similar a ter caído dentro do conto “O Alienista”, de Machado de Assis (1839-1908). A experiência será contada em um livro ainda sem título, a ser lançado em março do ano que vem. A obra deverá servir de contraponto à sua mais recente: A Boa Política (Companhia das Letras). Ele até brinca dizendo que o próximo título poderia ser “a má política”. Nesta entrevista à ISTOÉ, Janine afirma que o combate à corrupção não deve ser um fim em si e lamenta que os partidos não invistam na formação de líderes.

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Em A Boa Política há um capítulo sobre a “democracia de protesto”, sobre os eventos de 2013. É possível fazer uma avaliação positiva daquele período?

Naquele momento a sociedade brasileira passou a ter um nível de exigência mais elevada em relação aos políticos, maior cobrança quanto aos serviços públicos como transporte, saúde educação. Foi uma cobrança atabalhoada, mas era importante ter sangue novo nas ruas. Mas, depois, a pauta da melhoria de vida foi sequestrada para se transformar apenas em uma reclamação contra o PT. Sou totalmente contra a corrupção, mas as grandes questões do Brasil têm mais a ver com a enorme miséria e desigualdade do que com a corrupção.

Por quê?

Nosso enorme problema é ser uma sociedade que não chegou nem ao liberalismo — que é a igualdade de oportunidade, o mesmo ponto de partida para todo mundo. O livro que vou lançar no ano que vem poderia tratar da má política, que pratica um jogo de destruição.

Isso ocorre só no Brasil?

Não apenas. A eleição de Donald Trump nos EUA, a saída do Reino Unido da União Europeia são momentos em que entramos num jogo que não é mais do ganha-ganha e sim do perde-perde. Os cálculos de prejuízos do Brexit são enormes. Todos perderam. Aqui, a gente está vendo que o buraco é muito fundo.

Em que sentido?

Nossa questão crucial é não termos o hábito da discussão política. Precisamos tentar sair dessa história de que um lado é bom e o outro é ruim, um é certo e o outro é errado, um é honesto e o outro é ladrão. Desse jeito, as pessoas não conseguem aceitar um princípio básico da democracia, que é a existência de uma via de direita e outra de esquerda, e ambas serem democráticas. Ganhar e perder eleição, ter liberdade para concorrer e para escolher, tudo isso faz parte. Desde Gregório de Matos (1636-1696) pelo menos, a crítica aos governantes passa sempre pela corrupção. Então, nos acostumamos com a ideia de que, se tirar os ladrões da política, tudo vai passar a funcionar.

Um dos resultados dessa ideia parece ser a candidatura de Jair Bolsonaro (PSC). Qual a sua opinião sobre ele?

Acho que ele ainda vai fazer muitos estragos na sociedade brasileira. Deve concorrer a presidência e poderá fazer uma bancada na Câmara Federal, o que acarretará dificuldade para negociar. Acredito que a única política consistente hoje em dia é a social democracia. Não vejo outro caminho.

Poderia dar um exemplo de boa política e de má política em governos brasileiros?

Penso que Fernando Henrique Cardoso e o Luiz Inácio Lula da Silva foram muito positivos do ponto de vista político, garantindo eleições livres, democracia. FHC conseguiu deter a inflação, que era um flagelo. O período final do governo Itamar Franco e o início do governo FHC foram bons pelo fato de ambos terem sido capazes de fazer o trabalho prático, o que é muito difícil. O governo Lula foi positivo pela inclusão social. O Fernando Collor é um exemplo de má política: apostou tudo no combate da inflação e fracassou, não tinha estrutura. Mas dos sete presidentes da Nova República, só um não chegou lá pelo “dedaço”.

“Dedaço”?

O Brasil adota a política do dedaço — ou seja, escolhas feitas pelo dedo apontado. Lula apontou o dedo para Dilma e escolheu sua substituta assim. José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer assumiram na falta do titular. O Collor aproveitou o vazio de um momento político, em que o PMDB estava desestruturado, e entrou como aventureiro. O FHC foi apontado pelo dedo de Itamar. O Lula é a única liderança que foi formada, mas usou o dedo para escolher sua candidata. Há uma má política aqui no sentido de não formar sucessores. A eleição do dedo é geral no Brasil. Desestimula as prévias: para quê se, na última hora, será quem o FHC ou o Lula, entre outros caciques, escolherem?

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O senhor está escrevendo sobre isso?

Estou escrevendo sobre a minha experiência no Ministério da Educação. Deve ser lançado em março do ano que vem. Vou falar do que eu vivi na função. Assumi o ministério numa hora em que o impeachment era uma possibilidade, em abril de 2015, e saí quando era uma certeza, em setembro. Iniciativas importantes estavam sumindo, como o Dialoga Brasil, que a região sudeste do país nem ficou conhecendo, e consistia em viagens às sextas-feiras para uma cidade onde a presidente conversava com lideranças da área social. Essas reuniões promoveram uma melhora na comunicação dela, que sempre foi ruim. Soube que a intenção de nomear o ex-presidente Lula para a Casa Civil vinha desde agosto de 2015, mas somente em março de 2016 ela tentou. Imagino que seria muito difícil a Dilma aceitar a redução do papel dela, caso ele entrasse.

Àquela altura pareceu que ela estava agindo mais para salvar a pele dele, dando imunidade para que não fosse indiciado?

Se ele tivesse entrado antes, talvez salvasse a gestão dela. Ao mesmo tempo em que a crise crescia, o PT se defendia muito bem porque conseguiu grudar a marca do Eduardo Cunha aos defensores do impeachment. E a marca do Cunha era muito tóxica. O Lula seria a última chance de salvar porque ele conservava a popularidade empresarial, os patrões viam nele uma pessoa mais pragmática que ideológica. Os empresários achavam a Dilma ideológica e isso, para eles, é algo negativo e que só existe na esquerda. Mas existe a ideologia de direita também. Se o Lula tivesse entrado em agosto de 2015, poderia ter mudado a situação. Agosto também foi o mês em que Temer deixou a articulação política do governo e declarou que o País precisava de alguém para reunificar o Brasil, pois com a popularidade em torno de 7% a Dilma não chegaria ao fim do mandato. Tornou público que não estava mais empenhado na defesa do mandato dela.

Em meio a toda essa tensão, como foi migrar da vida de intelectual para a de ministro em fim de governo?

Foi complicado. Claro que houve momentos muito recompensadores, como o lançamento da base curricular, uma das coisas mais importantes que pude fazer porque indica o que o aluno deve aprender, em que série, até onde, quais são os conteúdos importantes da história. Também aproveitei a crise do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) para focar mais em carreiras que fossem importantes para o Brasil. Para se ter uma ideia, 16% do financiamento do Fies estava indo para o Direito, uma área que tem um número absurdo de cursos: o Brasil sozinho tem tantos quanto o resto do mundo inteiro. Muito difícil mudar isso porque são faculdades lucrativas, embora quase 80% dos alunos nunca cheguem a obter a carteira da OAB e, consequentemente, não podem advogar. Tudo isso, em meio a uma gigantesca crise na qual a falta de dinheiro se tornou combustível poderoso, e foi agravada pelo fato de a presidente Dilma ter dificuldade para falar com a sociedade e com os próprios ministros.

O que ela poderia ter feito de diferente?

Ela não explicava bem a situação, não dizia ao povo: “Desculpem, mas o dinheiro está faltando e peço a colaboração de vocês pois teremos um ano ruim, ou dois.” Do lado dos beneficiados, não havia estrutura mental para lidar com a crise econômica, não sabiam da gravidade. Qual é a falha aí? Um governo não pode ter projetos que as pessoas apoiam só quando está saindo dinheiro. O apoio tem que ser mais forte e de longo prazo.

Isso ocorre pelo fato de o brasileiro ser despolitizado?

Sim. E o PT errou ao não transmitir que atrás da melhoria de vida tem uma política pública. E o apoio acabou na hora do “vamos ver”.

Como o senhor se sentia?

Teve um momento em que comecei a pensar em “O Alienista”, do Machado de Assis (1839-1908): parecia que a sociedade tinha enlouquecido. Foram momentos muitos difíceis, de pouca satisfação e muita insatisfação, até mesmo um sentimento de impotência. Agora, acho fundamental para a pessoa que pensa política ter esse contato direto com o tema.

O senhor diz que PT perdeu a imagem de partido ético. Acredita que a sigla ainda tem alguma chance?

Até o PT chegar ao governo, passou por 20 anos em que era visto como o mais ético dos partidos brasileiros, uma ética que se assentava no combate à miséria e na denúncia da corrupção. O partido chegava a ser acusado de ingênuo e diziam que não conseguiria governar de tão ético que era. Quando ele chegou ao governo, adotou políticas econômicas realistas, fez acordo com o capital político e conseguiu melhorar muito a condição de vida do brasileiro do ponto de vista do combate à miséria. Melhorou os instrumentos de combate a corrupção, mas parou de falar em ética. O PT perdeu esse discurso do compromisso ético junto com a igualdade. E, hoje, tem dificuldade de recuperar.

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